Diagnósticos e tratamentos ineficazes para alergia proliferam, diz cientista

Testes para alergia sem evidência científica estão resultando tanto em falsos positivos quanto falsos negativos, colocando pessoas em risco, alertam médicos de uma rede global de pesquisa que publicaram um novo manual para orientar leigos.

Os exames questionáveis, dizem os especialistas, frequentemente se seguem à imposição de dietas que podem deixar os pacientes subnutridos.

Entre os testes criticados pelos cientistas está um derivado da acupuntura e da homeopatia,  feito com um medidor de resistência elétrica aplicado a uma pessoa que segura um pedaço de alimento nas mãos. Outro é um teste comum feito nos folículos capilares, e testes de farmácia que avaliam anticorpos –proteínas do sistema imune—também são imprecisos, avaliam os especialistas.

Para combater a desinformação, os cientistas publicaram o guia “Making Sense of Allergies” (Compreendendo as Alergias) baseado em uma revisão de estudos dos últimos anos. A publicação (em inglês) pode ser obtida por download no site da ONG “Sense About Science”, que produziu o manual junto com a rede internacional de pesquisa médica Cochrane.

Um estudo que produziu um balanço mundial do campo de pesquisa, mostrou que 40% das pessoas declaram ser alérgicas a algum tipo de alimento, quando levantamentos médicos indicam que a proporção real está abaixo de 5%. Em crianças, a proporção é igual, mas 35% dos pais acreditam que seus filhos têm alergia.

Banalização do risco
“É muito comum eu ver crianças postas em dietas de restrição por seus pais assumirem de boa fé que elas têm alergias a múltiplos alimentos respaldados em ‘testes de alergia’ sem nenhuma base científica”, afirma Paul Seddon, alergista pediátrico consultor da Cochrane. “Isso tem que acabar.”

Um dos malefícios de diagnosticar alergias quando elas não existem, afirmam os médicos, é que o problema acaba sendo banalizado e não respeitado nos casos de pessoas realmente alérgicas. “As pessoas que convivem com alergias perigosas estão se deparando com cinismo”, afirma Moira Austin, da campanha britânica de prevenção à anafilaxia (reação alérgica severa). “Muitos garçons acham que as pessoas com alergias alimentares estão apenas com frescura.”

Apesar de os casos reais de alergia serem menos numerosos que os casos imaginários, o número de pessoas alérgicas está crescendo. A razão para o aumento de incidência ainda são mal conhecidas. Provavelmente estão ligadas a fatores como uma maior higienização do ambiente infantil, mudanças de dieta habitual de crianças e deficiência de vitamina D.

Qualquer que seja a razão, a maior incidência resultou em um aumento no número de atendimentos de emergência por anafilaxia em hospitais. Em alguns países, como a Austrália, o número dobrou em uma década.

No Brasil, a proliferação dos exames de anticorpos também está impulsionando o aumento no número de falsos casos de alergia alimentar.

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